Textos Angelo Bruno

Poemas e outros textos do Professor Angelo Bruno

Fecho os olhos e me revejo há mais de setenta anos atrás, junto à mamãe, papai, irmãos e irmãs, formando um lar feliz numa honrada pobreza. Naquela lastimável primeira guerra mundial as restrições foram impostas a todo o povo, pois quando não se trabalha a terra, não existe alimento para a população.

Foi nesse clima que papai e mamãe se casaram. Desta união brotaram várias filhas e filhos. Antes de mim havia duas irmãzinhas. A morte apareceu cedo em nossa casa. A segunda irmãzinha de dois anos voou para o céu, comovendo a população do lugarejo, pela maneira como nos deixou. Ela previu a própria morte, pois se despediu de toda a vizinhança, dos irmãos, de mamãe e, no colo de papai adormeceu e não acordou mais, em pleno mês de maio, mês das mães, das flores e de Maria.

Com apenas trinta e três anos, também mamãe nos deixou em desespero, pois pressentia o desmantelo de nosso lar. Foi um triste fim de ano gélido e inesquecível. Transcorridos mais trinta e seis anos, desde o dia fatídico, lá se vai papai em pleno mês de agosto, a estação mais quente do ano. Passados outros onze anos e a mais nova das irmãs nos deixa; um câncer no cérebro é fatal. Não adiantaram as repetidas operações cirúrgicas e demais aplicações tão sofridas. Mesmo assim ela, sorrindo, adormeceu para sempre. Era a estação do outono, mês em que as folhas caem deixando os galhos solitários feito gigantes que imploram a proteção contra o frio que está por vir.

Todos estes exemplos e, cada família poderá contar os seus, são para nos alertar que a vida na terra é passageira e nós devemos nos preparar por que a morte não escolhe idade, cor, raça, posição social ou sexo.  Para quem acredita a morte é o nascimento para a vida na glória eterna, o fim da permanência neste vale de lágrimas e começo da nova história na Pátria Celeste. Esta terra é um exílio onde cada um se purifica para merecer o prêmio final.

SIM, CREIO NA VIDA ETERNA: FINADOS NA TERRA, PORÉM FELIZES NO CÉU.

 Angelo Bruno

31-10-2011

Fazia vários anos seguidos que não chovia no Vale do Cariri. Seu Zé viu a sua última rês morrendo a míngua. Chamou sua mulher e desabafou:

            _Catarina, que será de nós, neste inferno seco? Não nos resta mais nenhuma vaquinha, até a malhada acabou de bater os cascos.

            _É Zé, bem que o Padim Ciço já dizia que a salvação do nordeste está na Bandeira Verde, nas beiras do grande rio.

            _Quer dizer que nós temos de abandonar nossa terrinha e desandar pelo mundo afora?

            _E temos outra escolha, se não queremos além dos animais, ver o nosso Mundinho( Raimundo) e até nós mesmos morrer de fome e de sede?

            E foi assim que resolveram sair atrás da terra prometida, a Bandeira Verde, o grande rio Tocantins. Juntaram os cacarecos, trocaram à terrinha, a casa e o pouco mais que restava por um velho calhambeque, despediram-se dos amigos e às três da madrugada bem antes do arrebol, enquanto tudo dormia, ligaram o motor e saíram estrada afora.

            Adeus Vale do Cariri, adeus torrão Natal, torçam por nós para que possamos frutificar aonde o bom Deus vai nos levar. A fantasia galopava junto ao roncar do motor e mil saudades flutuavam com a poeira da estrada. É tão triste a partida, é como arrancar um pedaço da gente. Um choraminga num canto, um segundo sua o nariz disfarçando, o terceiro enxuga as lágrimas que terminam de cair. O cachorro com a cabeça entre as pernas da criança partilha da dor geral, até o papagaio falador está todo encorujado.O calhambeque está levando tudo que pode ser útil na viagem e na futura Canaã. São grandes as esperanças que levavam consigo, afinal existe a promessa do Padre Cícero que na beira do grande rio existe fartura. Percorreram o Piauí, quantas carcaças espalhando desolação. Graças a Deus estavam fugindo daquele inferno seco. Somente o mandacaru tem a força para desafiar a estiagem de vários anos.

Atravessado o Parnaíba, estavam finalmente no Maranhão. Este estado já tem melhor aspecto, aqui a mãe natureza é menos madrasta. Os campos estão bem mais verdes, não existe mais sinal de morte presente, nem centenas de esqueletos espalhando assombração pela imensidão.

Seu Zé esboçou um sorriso, dona Catarina arriscou um palpite: “Deus está nos protegendo e Padim Ciço nos guia passo a passo”. Rodaram o dia todo, passaram por cidades e corrutelas; finalmente estavam admirando o rio Tocantins, realmente era um grande rio. Acamparam, afinal fazia vários dias que tinham deixado o Ceará, a terra abençoada de Iracema, a virgem dos lábios de mel; do Padim Ciço, o profeta de Juazeiro. A Bandeira Verde estava bem ali, encantando os retirantes que não cansavam de admirar a fartura das águas e o verde das matas.

Arrancharam-se finalmente. Seu Zé indagava junto aos habitantes, procurava conhecer as possibilidades que ele teria neste lugar. Dona Catarina ia à igreja, fazia amizade com as beatas do lugar e o Mundinho corria feliz pela rua poeirenta ou lamacenta, dependendo do humor do tempo, e, não cansava de banhar com o inseparável cachorro. Parecia ser realmente o paraíso procurado, chegava a fazer pequenos fretes com seu calhambeque. Dir-se-ia até ser aqui a nova Canaã.

Conversa vai, conversa vem e alguém tenta convencê-lo que a Bandeira Verde está alem do rio Tocantins, nas margens do rio Araguaia. Trocaram o velho carro por uma tropa de animais de carga encangalhados com jacás e tudo mais, atravessaram o Tocantins e partiram novamente se embrenhando mata adentro atrás da sonhada Bandeira Verde.

O caminho que tantos romeiros seguiam era o picadeiro deixado pelos índios. Depois de dois dias de caminhada chegaram a um povoado e foram recebidos com cordialidade. Permaneceram ali por alguns dias enquanto seu Zé seguiu adiante, a fim de procurar um lugar onde pudessem instalar-se com a Catarina e o Mundinho.

Até que enfim encontrou um sem defeitos, lugar de terra preta e água sem parar. Decidiu-se, ser ali mesmo o lugar para fincar morada. Limpou uma boa eira, enfiou quatro estacas, fez um rancho provisório e voltou para buscar a família. O astral era bem diferente, já tinha onde pousar e um pedaço de mata, a Bandeira Verde tão sonhada.

Agosto o mês da derrubada, setembro com suas plantações, outubro começam as chuvas, novembro a espera ansiosa. Que beleza! Todas as plantações estão correspondendo à expectativa. Realmente valeu a pena trabalhar, tudo que plantou vingou, a terra retribuía com fartura.

Chegou dezembro com suas chuvas; janeiro, mais chuvas ainda e o arrozal começou a produzir. Fevereiro abriu uma estiagem, com as mãos ágeis conseguiu fazer plena colheita. E veio março, todas as cataratas do céu se abriram. Quanta água, meu Deus! Foi um mês muito cruel, deu uma enchente de matar sapos. Todas as baixadas encheram-se, tudo ao redor parecia um mar de água. Com o passar dos dias, diminuiu a chuvarada, retornou a mata verde ainda mais verde, pois criou-se um lodo esverdeado até nas águas paradas. Agora sim, parecia realmente uma bandeira verde, que maravilha! Porém as águas estagnadas trouxeram o danado do pernilongo, por eles ainda desconhecido.

Feliz pela boa colheita carregou os burros e levou as primícias para vender no povoado. Dona Catarina já esperando o segundo filho, desejou-lhe boa sorte na viagem, o Mundinho deu-lhe um forte abraço e um beijo filial e o cachorro o acompanhou. Chegou finalmente ao destino oferecendo sua farta colheita, mas ninguém interessou por ela. Foi pego por um desespero geral, um desânimo tomou conta dele. E agora o que fazer? Precisavam de roupas, remédios e tudo mais, além do enxoval do bebê que estava pra nascer. Voltar com a carga, não era absolutamente possível. Foi ali que um intermediário fez-lhe a proposta: “deixa comigo, eu ti arrumo fiado, a mercadoria que precisas e quando eu vender o teu arroz, a gente acerta. Era assinar a carta em branco, porém seu Zé não tinha outra saída; assim cabisbaixo descarregou a tropa do arroz e recarregou com a mercadoria que havia adquirido em confiança, entrando num emaranhado do qual nunca mais irá sair.

E veio a colheita de bananas, cada cacho rechonchudo, uma verdadeira fartura. Encheu os jacás e saiu mais animado. Desta vez iria conseguir fazer um bom negócio. Chegou ao povoado todo sorridente, mas teve que passar pela mesma humilhação. O único a bancar o benfeitor foi aquele atravessador que novamente se propôs a receber a carga de bananas e ceder fiado mais mercadorias do armazém, não sem antes por mil e um defeitos nas frutas. O cearense deu vontade de esganá-lo e sair correndo, entretanto havia a sua Catarina, agora com os dois pimpolhos, não podia mesmo esmorecer. Cedeu a carga, aumentou a dívida e voltou outra vez humilhado e cabisbaixo. De retorno ao rancho um calafrio invade os seus ossos. É a malvada malária que o atacou, do tipo mais bravo que existe. Foi uma febre fulminante que o estava levando e em poucos dias sua alma voou para Deus, deixando Catarina desnorteada com os dois pequenos. Logo que chegou ao povoado a noticia da morte do Zé Cearense, o tal comerciante apareceu exigindo o pagamento da mercadoria cedida em fiança. Não encontrando outra coisa ficou com o sítio, a tropa e o mais que podia juntar.

A viúva voltou com os dois filhinhos e o cachorro até ao povoado. Ali deixou o maiorzinho tomando conta do pequeno e sujeitou-se a lavar roupas nas casas dos Maiorais, até conseguir voltar ao Vale do Cariri e tentar sobreviver como faz o mandacaru. A mata tornou-se um pesadelo, pois sepultou o que havia de mais sagrado em sua vida, o seu verdadeiro amor. O enorme inferno verde pode até ser esperança para quem chega nele prevenido, porém, para Catarina esta imensidão de cor esmeralda tornou-se causa de desespero e a maior decepção de sua vida. Bandeira Verde: Esperança e decepção.

Chora triste o coração vendo o pobre ser pisado

Cada vez sem solução frente ao lar desmantelado

É preciso nessa hora muita calma e muita fé

Aja firme e sem demora seja lá quem você é

Nunca espere compaixão de quem só vive a lucrar

O comércio é exploração é difícil o fartar

Fazia vários anos seguidos que não chovia no Vale do Cariri. Seu Zé viu a sua última rês morrendo a míngua. Chamou sua mulher e desabafou:

            _Catarina, que será de nós, neste inferno seco? Não nos resta mais nenhuma vaquinha, até a malhada acabou de bater os cascos.

            _É Zé, bem que o Padim Ciço já dizia que a salvação do nordeste está na Bandeira Verde, nas beiras do grande rio.

            _Quer dizer que nós temos de abandonar nossa terrinha e desandar pelo mundo afora?

            _E temos outra escolha, se não queremos além dos animais, ver o nosso Mundinho( Raimundo) e até nós mesmos morrer de fome e de sede?

            E foi assim que resolveram sair atrás da terra prometida, a Bandeira Verde, o grande rio Tocantins. Juntaram os cacarecos, trocaram à terrinha, a casa e o pouco mais que restava por um velho calhambeque, despediram-se dos amigos e às três da madrugada bem antes do arrebol, enquanto tudo dormia, ligaram o motor e saíram estrada afora.

            Adeus Vale do Cariri, adeus torrão Natal, torçam por nós para que possamos frutificar aonde o bom Deus vai nos levar. A fantasia galopava junto ao roncar do motor e mil saudades flutuavam com a poeira da estrada. É tão triste a partida, é como arrancar um pedaço da gente. Um choraminga num canto, um segundo sua o nariz disfarçando, o terceiro enxuga as lágrimas que terminam de cair. O cachorro com a cabeça entre as pernas da criança partilha da dor geral, até o papagaio falador está todo encorujado.O calhambeque está levando tudo que pode ser útil na viagem e na futura Canaã. São grandes as esperanças que levavam consigo, afinal existe a promessa do Padre Cícero que na beira do grande rio existe fartura. Percorreram o Piauí, quantas carcaças espalhando desolação. Graças a Deus estavam fugindo daquele inferno seco. Somente o mandacaru tem a força para desafiar a estiagem de vários anos.

Atravessado o Parnaíba, estavam finalmente no Maranhão. Este estado já tem melhor aspecto, aqui a mãe natureza é menos madrasta. Os campos estão bem mais verdes, não existe mais sinal de morte presente, nem centenas de esqueletos espalhando assombração pela imensidão.

Seu Zé esboçou um sorriso, dona Catarina arriscou um palpite: “Deus está nos protegendo e Padim Ciço nos guia passo a passo”. Rodaram o dia todo, passaram por cidades e corrutelas; finalmente estavam admirando o rio Tocantins, realmente era um grande rio. Acamparam, afinal fazia vários dias que tinham deixado o Ceará, a terra abençoada de Iracema, a virgem dos lábios de mel; do Padim Ciço, o profeta de Juazeiro. A Bandeira Verde estava bem ali, encantando os retirantes que não cansavam de admirar a fartura das águas e o verde das matas.

Arrancharam-se finalmente. Seu Zé indagava junto aos habitantes, procurava conhecer as possibilidades que ele teria neste lugar. Dona Catarina ia à igreja, fazia amizade com as beatas do lugar e o Mundinho corria feliz pela rua poeirenta ou lamacenta, dependendo do humor do tempo, e, não cansava de banhar com o inseparável cachorro. Parecia ser realmente o paraíso procurado, chegava a fazer pequenos fretes com seu calhambeque. Dir-se-ia até ser aqui a nova Canaã.

Conversa vai, conversa vem e alguém tenta convencê-lo que a Bandeira Verde está alem do rio Tocantins, nas margens do rio Araguaia. Trocaram o velho carro por uma tropa de animais de carga encangalhados com jacás e tudo mais, atravessaram o Tocantins e partiram novamente se embrenhando mata adentro atrás da sonhada Bandeira Verde.

O caminho que tantos romeiros seguiam era o picadeiro deixado pelos índios. Depois de dois dias de caminhada chegaram a um povoado e foram recebidos com cordialidade. Permaneceram ali por alguns dias enquanto seu Zé seguiu adiante, a fim de procurar um lugar onde pudessem instalar-se com a Catarina e o Mundinho.

Até que enfim encontrou um sem defeitos, lugar de terra preta e água sem parar. Decidiu-se, ser ali mesmo o lugar para fincar morada. Limpou uma boa eira, enfiou quatro estacas, fez um rancho provisório e voltou para buscar a família. O astral era bem diferente, já tinha onde pousar e um pedaço de mata, a Bandeira Verde tão sonhada.

Agosto o mês da derrubada, setembro com suas plantações, outubro começam as chuvas, novembro a espera ansiosa. Que beleza! Todas as plantações estão correspondendo à expectativa. Realmente valeu a pena trabalhar, tudo que plantou vingou, a terra retribuía com fartura.

Chegou dezembro com suas chuvas; janeiro, mais chuvas ainda e o arrozal começou a produzir. Fevereiro abriu uma estiagem, com as mãos ágeis conseguiu fazer plena colheita. E veio março, todas as cataratas do céu se abriram. Quanta água, meu Deus! Foi um mês muito cruel, deu uma enchente de matar sapos. Todas as baixadas encheram-se, tudo ao redor parecia um mar de água. Com o passar dos dias, diminuiu a chuvarada, retornou a mata verde ainda mais verde, pois criou-se um lodo esverdeado até nas águas paradas. Agora sim, parecia realmente uma bandeira verde, que maravilha! Porém as águas estagnadas trouxeram o danado do pernilongo, por eles ainda desconhecido.

Feliz pela boa colheita carregou os burros e levou as primícias para vender no povoado. Dona Catarina já esperando o segundo filho, desejou-lhe boa sorte na viagem, o Mundinho deu-lhe um forte abraço e um beijo filial e o cachorro o acompanhou. Chegou finalmente ao destino oferecendo sua farta colheita, mas ninguém interessou por ela. Foi pego por um desespero geral, um desânimo tomou conta dele. E agora o que fazer? Precisavam de roupas, remédios e tudo mais, além do enxoval do bebê que estava pra nascer. Voltar com a carga, não era absolutamente possível. Foi ali que um intermediário fez-lhe a proposta: “deixa comigo, eu ti arrumo fiado, a mercadoria que precisas e quando eu vender o teu arroz, a gente acerta. Era assinar a carta em branco, porém seu Zé não tinha outra saída; assim cabisbaixo descarregou a tropa do arroz e recarregou com a mercadoria que havia adquirido em confiança, entrando num emaranhado do qual nunca mais irá sair.

E veio a colheita de bananas, cada cacho rechonchudo, uma verdadeira fartura. Encheu os jacás e saiu mais animado. Desta vez iria conseguir fazer um bom negócio. Chegou ao povoado todo sorridente, mas teve que passar pela mesma humilhação. O único a bancar o benfeitor foi aquele atravessador que novamente se propôs a receber a carga de bananas e ceder fiado mais mercadorias do armazém, não sem antes por mil e um defeitos nas frutas. O cearense deu vontade de esganá-lo e sair correndo, entretanto havia a sua Catarina, agora com os dois pimpolhos, não podia mesmo esmorecer. Cedeu a carga, aumentou a dívida e voltou outra vez humilhado e cabisbaixo. De retorno ao rancho um calafrio invade os seus ossos. É a malvada malária que o atacou, do tipo mais bravo que existe. Foi uma febre fulminante que o estava levando e em poucos dias sua alma voou para Deus, deixando Catarina desnorteada com os dois pequenos. Logo que chegou ao povoado a noticia da morte do Zé Cearense, o tal comerciante apareceu exigindo o pagamento da mercadoria cedida em fiança. Não encontrando outra coisa ficou com o sítio, a tropa e o mais que podia juntar.

A viúva voltou com os dois filhinhos e o cachorro até ao povoado. Ali deixou o maiorzinho tomando conta do pequeno e sujeitou-se a lavar roupas nas casas dos Maiorais, até conseguir voltar ao Vale do Cariri e tentar sobreviver como faz o mandacaru. A mata tornou-se um pesadelo, pois sepultou o que havia de mais sagrado em sua vida, o seu verdadeiro amor. O enorme inferno verde pode até ser esperança para quem chega nele prevenido, porém, para Catarina esta imensidão de cor esmeralda tornou-se causa de desespero e a maior decepção de sua vida. Bandeira Verde: Esperança e decepção.

Chora triste o coração vendo o pobre ser pisado

Cada vez sem solução frente ao lar desmantelado

É preciso nessa hora muita calma e muita fé

Aja firme e sem demora seja lá quem você é

Nunca espere compaixão de quem só vive a lucrar

O comércio é exploração é difícil o fartar

A.B.

Reverencio o baluarte

Que chora e está sorrindo

Faz da profissão uma arte

À comunidade servindo

 

À inteira sociedade

Costuma orientar

A sua seriedade

Ninguém vai contestar

 

É  verdadeiro  exemplo

Faz da vida uma oblação

A escola é seu templo

Ao semear educação

 

Considero-o heroi

Vive a vida a educar

A saúde se corroi

Mas não para de educar

 

Vou gritando ao mundo inteiro

Vamos juntos dar valor

A este grande guerreiro

Que é o nosso PROFESSOR

Angelo Bruno

15/10/2011

                                                                                                        Há quem leve ao extremismo

                                                                                                         Desvirtuando um profeta

                                                                                                         Aderindo ao fanatismo

                                                                                                         Muitos findam na sarjeta

            O Padre Cícero Romão do Juazeiro no Ceará, conhecido pelos romeiros como Padim Ciço, tinha profetizado que viria uma grande seca em todo nordeste e que a salvação estava na Bandeira Verde, às margens do grande rio. E a catástrofe veio brava como nunca tinha sido antes. Secaram as fontes e os rios, não se encontrava mais água nem nos poços. Morreram os animais, não existia mais nada para alimentar o gado nem mesmo as pessoas encontravam o que comer. Muitos subiram num Pau de Arara rumo às metrópoles do sul, outros punham o saco nas costas com os apetrechos necessários e saiam à procura da Bandeira Verde.

É sofrida a história de cada retirante que deixa a sua terra rumo ao desconhecido. Geralmente saiam em massa, liderados por um beato ou uma beata que se diziam inspirados por Padre Cícero, para levá-los a conquista da terra prometida, terra de fartura. Assim mergulhavam nas matas, sendo dizimados pela malária, mas não paravam; o fanatismo os impelia a avançar sempre rumo a Bandeira Verde, às margens do grande rio.

Os líderes tinham um carisma todo especial, usavam a tática dos patriarcas do Antigo Testamento, relembrando os grandes feitos do Padim Ciço, o seu amor para cada romeiro. Falavam também da grande caminhada feita até então, não poderiam desanimar agora, nunca. E o povo em coro repetia de vez em quando: “É verdade, é verdade!” E o(a) beato(a) prosseguia falando a noite inteira, cantavam o rosário e as ladainhas em latim. Só Deus mesmo para entender, porque nem falavam direito a língua portuguesa. Prosseguiam relembrando a travessia do rio Tocantins e todas as peripécias já vencidas. Agora não podiam parar, era urgente avançar rumo ao grande rio que era o Araguaia. Sempre intercalando orações e sermões. O que admirava é que até as crianças participavam dos diálogos comportadas sem dormir.

Fazia dó, vendo o povo cair na armadilha, não faltavam os espertalhões que ainda os incentivavam a vender todas as benfeitorias por preços irrisórios para aventurar-se e morrer na mata. Como é triste uma pessoa fanática, porém é muito mais calamitoso quem aproveita do fanatismo para beneficio próprio. O profeta Padre Cícero alertou prevendo a calamidade da seca, mas não previu que os romeiros levariam a tais extremos ao ponto de sacrificar tudo procurando o que seria o paraíso terrestre: a Bandeira Verde.

Nosso povo do sertão é um povo tão sofrido

Ele tem sua razão por ter sido esquecido

Quem sentiu na própria carne o rigor da seca braba

Não há como desencarne dessa dor que não acaba

Vão lembrando Padim Ciço a esperança não se perde

No ocidente há o grande viço, pois é lá a Bandeira Verde

É antigo este costume

De viver sempre a migrar

Até o peixe em cardume

Volta à fonte a desovar

As nossas matas eram ubertosas, percorridas pelos índios Carajás, Kraôs, Xerentes e Apinajés. Cada tribo tinha as suas tradições e quando se encontravam nem sempre eram pacíficas. As mulheres permaneciam na aldeia, plantavam mandioca, abóboras, arroz, feijão e milho; tudo o que compõe a agricultura familiar. Era tarefa delas também a extração do óleo de côco babaçu, além dos demais serviços domésticos. A obrigação dos homens consistia em caçar, pescar e defender a aldeia. Era a civilização baseada no dia a dia, plantavam o que realmente necessitavam. Eram imediatistas, preocupavam-se com o hoje. Caçavam e pescavam o que podiam consumir e repartiam se houvesse abundância. Também não derrubavam as plantas sem ter necessidade. A mãe terra é sagrada e vai respeitada.

Um belo dia chegaram como intrusos, uns retirantes da seca do nordeste e fizeram desse lugar a morada deles. Aqui plantaram arroz, feijão, mandioca, café e demais cultura de sub existência, além de criarem umas vaquinhas para o leite nosso de cada dia.

Acontece que periodicamente apareciam alguns das tribos para caçar e pescar. O nativo não tinha o senso de propriedade, para ele todos os animais eram objetos de caça e pesca; encontrando uma vaca achavam-se no direito de matá-la e levar as carnes para alimentar a aldeia.

Os novos inquilinos não gostaram nem um pouco ao ver que as rezes desapareciam uma após a outra, assim começaram a vigiar o rebanho pondo armadilhas para pegar a fera que dizimava as vacas. Foi ali que descobriram que eram os índios que roubavam as rezes, então partiram para defender o que era propriedade deles, armando tocaias para matar os ladrões de gado. Naquela época achavam que os autóctones não tinham almas, então era permitido matá-los. Os nativos sendo atacados começaram a se defender e ali aconteceu o choque entre as duas civilizações.

Infelizmente os brancos espalharam o vírus da gripe entre os primitivos que, não possuindo anticorpos para defendê-los das doenças ocorreu um verdadeiro genocídio ceifando aos milhares os indefesos nativos.

Quem se diz civilizado, porém usa a violência

Vê apenas o seu lado acha justa a prepotência

Nossos livros mais sagrados falam em Caim e Abel

Dois irmãos abitolados Cada qual no seu cartel

É preciso questionar Porque o outro é diferente

Não podemos esquivar mas, tratá-lo como gente

Angelo Bruno